Quando o assunto é trânsito, costumamos olhar apenas para onde o problema aparece: nas ruas. Falamos sobre velocidade, imprudência, fiscalização, violência no trânsito e números que assustam. Porém, existe uma etapa anterior, silenciosa, essencial e quase sempre ignorada que determina boa parte do comportamento do motorista: a formação que ele recebeu antes de dirigir pela primeira vez.
É nesse ponto que encontramos um dos profissionais mais importantes da segurança viária e, paradoxalmente, um dos menos reconhecidos pela sociedade: o instrutor de trânsito.
Por trás de cada motorista existe alguém que esteve ao lado dele nos primeiros medos, nas primeiras decisões, nos primeiros erros e nos primeiros acertos. Alguém que ensinou não apenas a trocar marchas ou fazer baliza, mas a dividir o espaço público, prever riscos, lidar com a pressão da via, entender o outro usuário e tomar decisões que preservam vidas.
Ao longo dos meus 24 anos formando instrutores no Rio Grande do Sul, testemunhei diariamente o impacto que o instrutor tem na vida de centenas de alunos. O que ele ensina, e a forma como ensina, torna-se comportamento reproduzido por décadas. Cada frase, cada correção, cada explicação molda a postura que o condutor levará para o trânsito.
O problema é que, enquanto discutimos sinistros, infraestrutura ou fiscalização, raramente perguntamos: como esse motorista aprendeu a dirigir? Quem o ensinou a olhar o entorno, respeitar o espaço, agir com calma e responsabilidade? Ignorar essa etapa é ignorar a origem dos comportamentos que mais tarde aparecem como estatísticas negativas.
Foi dessa percepção que nasceu o livro Serei Instrutor, e agora?, no qual busco dar visibilidade à complexidade e à importância pedagógica da profissão. O instrutor não é um “preparador para prova”. Ele é um educador. Ele participa diretamente da construção da cultura de segurança das nossas cidades. Quando se forma bem um instrutor, forma-se melhor todo o futuro trânsito.
Em um momento em que surgem propostas nacionais que tratam a formação de condutores como algo dispensável, é necessário reforçar uma verdade simples: não existe trânsito seguro sem educação. E essa educação não acontece por acaso; ela depende de profissionais capacitados, atualizados e valorizados. Depende de estrutura, método e responsabilidade.
No SINDICFC-RS, defendemos justamente isso: uma formação séria, qualificada e humana. Defendemos que o instrutor seja reconhecido como o que verdadeiramente é, um agente de segurança pública. Porque cada aula bem dada evita um risco futuro. Cada bom instrutor diminui a probabilidade de um sinistro. Cada formação forte gera um trânsito mais responsável.
O trânsito que desejamos não nasce na rua. Nasce dentro da sala de aula, do carro de aprendizagem e da relação entre instrutor e aluno. É ali que se constrói o que de fato importa: a consciência.
Valorizar o instrutor é valorizar a vida. E é por isso que seguimos firmes
defendendo quem ensina para que todos possam chegar com segurança.
Por Lucas Bavaresco
Pedagogo e especialista em formação de condutores