Por muitos anos, o termo “acidente de trânsito” foi amplamente utilizado para descrever colisões, atropelamentos ou outras ocorrências viárias. Porém, a palavra “acidente” remete a algo inevitável, imprevisível, sem responsabilidade direta. E isso, aos poucos, está sendo revisto.
Em 2020, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) publicou a norma NBR 10697, que orienta a substituição do termo acidente por sinistro no contexto do trânsito. A nova nomenclatura traz um olhar mais coerente com a realidade: a maioria dos episódios de trânsito poderia ser evitada com comportamentos adequados, respeito à sinalização e atenção dos condutores e pedestres.
O termo sinistro de trânsito é definido pela norma como qualquer evento que envolva danos materiais, lesões a pessoas ou animais, ou ainda prejuízos ao fluxo viário, à infraestrutura ou ao meio ambiente. A mudança vai além da linguagem — ela carrega um novo paradigma de responsabilidade e prevenção.
Segundo o especialista Lucas Bavaresco, “tratar como ‘sinistro’ nos ajuda a reconhecer que há responsabilidade, que há causas identificáveis, e que, portanto, também há o que ser feito para evitar”. Ele complementa: “é um ajuste de consciência coletiva. Mudar a linguagem é um primeiro passo para mudar atitudes”.
A própria imprensa já começa a incorporar essa mudança. Alguns veículos tradicionais, como o jornal O Estado de São Paulo, passaram a adotar o termo “sinistro” em algumas reportagens. Técnicos, engenheiros de tráfego e especialistas da área também vêm utilizando o termo em falas públicas, contribuindo para sua difusão.
Essa substituição não é apenas um detalhe semântico. É uma maneira de reeducar a sociedade sobre o que, de fato, está por trás de tantas tragédias diárias no trânsito: imprudência, imperícia ou negligência.
Ao adotarmos o termo sinistro de trânsito, passamos a reconhecer que essas ocorrências não são fruto do acaso, e sim resultado de escolhas humanas. E esse reconhecimento é o primeiro passo para promover um trânsito mais seguro e responsável para todos.
Lucas Bavaresco
Pedagogo, consultor e especialista em formação de instrutores.
Autor do livro “Serei Instrutor, e agora?” e criador do método PIÁ (Plano Ideal de Aula).