Desde janeiro de 2024, o Brasil passou a exigir novos padrões de segurança para todos os veículos novos. A Resolução nº 954/2022 do CONTRAN, alinhada ao Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (PNATRANS), não apenas impacta o mercado automotivo nos convida a repensar a forma como formamos condutores e lidamos com a prevenção de sinistros.
A norma é técnica, sim, mas seus efeitos são muito práticos. Ela torna obrigatórios diversos dispositivos de segurança que, até então, eram opcionais em muitos modelos. O objetivo é claro: diminuir os sinistros de trânsito, preservar vidas e tornar a condução mais segura, especialmente em situações de risco.
Entre os novos itens obrigatórios, destacam-se o Controle Eletrônico de Estabilidade (ESC), que evita derrapagens e perda de controle em curvas; luzes diurnas (DRL), que aumentam a visibilidade durante o dia; alertas de uso do cinto de segurança e de frenagem de emergência; e repetidores de seta nos retrovisores ou para-lamas, que tornam as intenções do condutor mais perceptíveis no trânsito. Esses recursos tornam o veículo mais inteligente, mais seguro e, acima de tudo, mais previsível e previsibilidade é um dos fundamentos de um trânsito seguro.
Mas o que isso tem a ver com os CFCs? Tudo.
Essa revolução silenciosa nos veículos exige também uma adaptação pedagógica por parte dos Centros de Formação de Condutores. Os carros mudaram, os recursos mudaram, e isso impacta diretamente o conteúdo e a forma como ensinamos. O instrutor hoje precisa preparar o aluno para lidar com assistências eletrônicas que corrigem erros, sem que ele se torne dependente delas. É essencial ensinar com clareza o funcionamento dos sistemas, mas também reforçar, com sensibilidade, o papel da atenção, da responsabilidade e da direção consciente.
Mais do que conhecer os recursos, o futuro condutor precisa entender que segurança não é um item de luxo: é um direito e um dever. Compreender como e por que o ESC atua, por exemplo, pode ser o que fará um jovem motorista respeitar a velocidade ao se aproximar de uma curva molhada. Quando um sistema de segurança é compreendido, ele deixa de ser apenas um item tecnológico e passa a ser um aliado na tomada de decisões conscientes.
A Resolução 954 reforça um ponto importante para quem trabalha na formação de condutores, começando pelo curso teórico: o trânsito seguro começa na fábrica, mas só se concretiza na cabeça e no coração de quem está ao volante. Isso torna o papel do instrutor ainda mais estratégico. Não se trata apenas de operar sistemas. Trata-se de formar atitudes.
Iniciativas como o PNATRANS, que propõe reduzir pela metade as mortes no trânsito até 2030, dependem diretamente da atuação dos profissionais dos CFCs. São eles que estão na linha de frente dessa mudança. E, para isso, é preciso manter-se atualizado, não apenas em relação à técnica, mas também em relação ao olhar pedagógico.
Segurança veicular é, também, educação para o trânsito.
Lucas Bavaresco
Pedagogo, consultor e especialista em formação de instrutores.
Autor do livro “Serei Instrutor, e agora?” e criador do método PIÁ (Plano Ideal de Aula).